O ex-CEO do Google Eric Schmidt enfrentou uma recepção indesejada na cerimônia de formatura da Universidade do Arizona na sexta-feira, quando estudantes abafaram seu discurso sobre inteligência artificial com vaias repetidas. A reação destaca o crescente desconforto entre jovens formandos que ingressam em um mercado de trabalho já transformado pela automação e pela incerteza econômica.

Schmidt, que liderou o Google de 2001 a 2011 e depois presidiu a empresa-mãe Alphabet, proferiu um discurso de formatura que rapidamente se tornou polêmico ao elogiar o potencial da IA. Segundo o Business Insider, ele reconheceu os medos expressos pelos estudantes — “de que as máquinas estão chegando, de que os empregos estão evaporando, de que o clima está se deteriorando, de que a política está fragmentada e de que vocês estão herdando uma bagunça que não criaram” — chamando-os de racionais. Mas sua tentativa de apresentar a IA como uma ferramenta de progresso claramente não ressoou com muitos na plateia.

Por que os estudantes reagiram

As vaias não foram aleatórias. A turma de formandos da Universidade do Arizona está ingressando em um mercado de trabalho onde empregos de nível inicial em atendimento ao cliente, entrada de dados e até mesmo algumas funções de colarinho branco estão desaparecendo. Um relatório da McKinsey de 2023 descobriu que 30% das horas trabalhadas na economia dos EUA poderiam ser automatizadas até 2030, com os empregos mais vulneráveis sendo aqueles ocupados por trabalhantes mais jovens.

Estudantes presentes na cerimônia disseram a repórteres locais que não precisavam que Schmidt lhes dissesse que a IA está chegando — eles já estão vendo seus efeitos. Uma estudante de ciência da computação, que pediu para não ser identificada, contou que foi rejeitada em quatro estágios onde as empresas depois lhe disseram que contrataram sistemas de IA no lugar. “Ele age como se a IA fosse algo do futuro distante, mas está acontecendo agora”, disse.

O otimismo de Schmidt em relação à IA

Schmidt não recuou. Ele argumentou que a IA criará novas indústrias e empregos, citando revoluções tecnológicas passadas, como a internet e os smartphones. “Já passamos por isso antes”, disse. “Toda vez que uma nova tecnologia surge, as pessoas entram em pânico. Mas sempre acaba criando mais oportunidades do que destrói.”

Sua posição alinha-se com sua carreira pós-Google, na qual se tornou um defensor vocal do desenvolvimento da IA. Em 2023, ele cofundou a Schmidt Futures, uma iniciativa que financia projetos de pesquisa e políticas relacionadas à IA. Mas críticos argumentam que seu otimismo ignora a dor a curto prazo que muitos trabalhadores enfrentarão enquanto as indústrias se adaptam.

O debate maior sobre o papel da IA

O confronto na Universidade do Arizona reflete uma tensão mais ampla na sociedade. Pesquisas mostram que os trabalhadores da Geração Z são mais céticos em relação à IA do que as gerações mais velhas, muitos temendo que ela piore a desigualdade. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2023 descobriu que 56% dos americanos com idades entre 18 e 29 anos acreditam que a IA levará a mais perdas do que ganhos de emprego.

As universidades estão no meio do debate. Enquanto os cursos de ciência da computação se expandem para atender à demanda da indústria, as faculdades de humanas e administração estão correndo para mostrar como seus formandos permanecerão relevantes. Na Universidade do Arizona, alguns estudantes disseram sentir que a instituição estava transmitindo uma mensagem ultrapassada ao convidar Schmidt, uma figura ligada aos ciclos de boom e queda da indústria de tecnologia.

O que acontece agora

A universidade não comentou o incidente, mas discursos de formatura raramente recebem esse tipo de reação. A equipe de Schmidt se recusou a se pronunciar além de suas declarações preparadas. Para os formandos, o momento reforça uma realidade dura: o mercado de trabalho que eles estão ingressando está mudando mais rápido do que seus diplomas conseguem prepará-los.

Uma coisa é clara — a IA não vai desaparecer. Se ela se tornará uma ferramenta de progresso ou uma força que aprofundará a desigualdade dependerá de políticas, educação e da rapidez com que a sociedade se adaptar. Mas para esses estudantes, o futuro parece menos uma oportunidade e mais uma questão em aberto.