Especialistas em saúde pública nos Estados Unidos afirmam que o país não está preparado para lidar com a próxima pandemia. Anos de cortes orçamentários e um aumento na disseminação de desinformação deixaram as agências lutando para testar doenças raras, rastrear surtos e controlar o pânico público. O caso de hantavirose no Colorado neste mês é um lembrete contundente das falhas no sistema. Um homem na casa dos 20 anos testou positivo após limpar um galpão infestado, um sinal de que o hantavírus é real — mesmo que não seja a próxima Covid. No entanto, os EUA carecem de ferramentas para responder rapidamente. Laboratórios estão com quadro de pessoal reduzido, kits de teste são escassos, e a confiança em alertas de saúde está desaparecendo rapidamente. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) tiveram seu financiamento de emergência reduzido em mais de US$ 1 bilhão desde 2020, enquanto desinformações sobre vacinas e riscos de doenças se espalham mais rápido do que os fatos. É uma combinação perigosa.

“Mesmo que tudo corra bem no controle desse surto, o que espero que aconteça, a conclusão não deve ser ‘estamos bem’”, disse Stephanie Psaki, ex-coordenadora de segurança global em saúde da Casa Branca. “Não estamos prontos para esse tipo de ameaça.”

O caso de hantavirose não se trata apenas de uma doença. É sobre o colapso mais amplo na infraestrutura de saúde pública. Os EUA costumavam realizar testes nacionais para patógenos raros, mas muitos laboratórios fecharam. Equipes de resposta a surtos estão com pessoal insuficiente, e os departamentos de saúde estão afogados em burocracia. O departamento de saúde do Colorado confirmou 14 casos de hantavirose na última década, mas apenas um punhado de laboratórios consegue realizar os testes. O orçamento do CDC para ameaças emergentes caiu de US$ 1,1 bilhão em 2020 para US$ 600 milhões em 2024. Isso representa metade do financiamento para rastrear doenças que poderiam saltar de animais para humanos.

O abismo no financiamento após a Covid-19 se transformou em um precipício.

Em 2021, o Congresso aprovou US$ 8,3 bilhões para preparação pandêmica. Mas até 2023, restavam apenas US$ 2,7 bilhões. A maior parte desse dinheiro foi destinada ao estoque de suprimentos e compra de vacinas, não ao fortalecimento do trabalho diário dos departamentos de saúde. Agora, estados estão cortando pessoal e fechando clínicas. O sistema de laboratórios de saúde pública da Califórnia perdeu 200 cargos desde 2020. O laboratório estadual de Michigan reduziu em um terço sua equipe de testagem de patógenos. Esses números não são apenas estatísticas. Eles significam respostas mais lentas, casos não detectados e mais mortes.

A desinformação está agravando o problema.

Boatos falsos sobre vacinas e riscos de doenças corroeram a confiança nos alertas de saúde. Durante o alerta de hantavirose, algumas pessoas descartaram o caso como uma farsa. Outras compartilharam “curas” não comprovadas. A enxurrada de informações falsas abafou o risco real: uma doença rara, mas mortal, que mata 38% dos infectados. Agora, as agências de saúde pública gastam mais tempo corrigindo mitos do que rastreando casos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a desinformação como uma das maiores ameaças à segurança sanitária global. Os EUA não estão imunes.

O caso de hantavirose é um aviso, não um cenário catastrófico.

O hantavírus é transmitido por roedores, não de pessoa para pessoa, então o risco de um grande surto é baixo. Mas o caso expõe um sistema que mal consegue se manter de pé. O Centro Nacional de Doenças Infecciosas Emergentes e Zoonoses do CDC diz que não consegue garantir testes rápidos para doenças raras como o hantavírus, embora sejam justamente essas doenças que frequentemente sinalizam a próxima pandemia. Especialistas afirmam que os EUA precisam reconstruir sua rede de laboratórios de saúde pública, contratar mais funcionários e financiar equipes de resposta a surtos. Mas, com orçamentos apertados e política polarizada, o progresso é lento. Alguns estados estão tomando medidas por conta própria. Nova York recentemente aprovou uma lei para financiar departamentos locais de saúde. Mas outros ainda estão cortando orçamentos. A questão não é se outra pandemia atingirá. É quando — e se os EUA estarão preparados.