A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou na quarta-feira que o surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) agora se qualifica como uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional (ESPII). A declaração foi feita após o comitê de emergência da agência se reunir para avaliar a situação, que já infectou 246 pessoas e causou 80 mortes desde o início do surto, em agosto de 2018. O comitê enfatizou que, embora o surto seja grave, ainda não atinge o patamar de uma emergência pandêmica. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou a situação como “grave e preocupante”, mas afirmou que o risco de disseminação internacional fora da região permanece baixo.

O surto está concentrado nas províncias nordestinas de Kivu do Norte e Ituri, onde conflitos armados e desconfiança da comunidade têm dificultado os esforços para conter o vírus. Mais de 194 mil pessoas já receberam a vacina experimental contra o Ebola, mas novos casos continuam surgindo, muitas vezes em áreas de difícil acesso. O ministério da Saúde da RDC relatou 80 mortes, incluindo 51 casos confirmados de Ebola e 29 prováveis. Trabalhadores de saúde também confirmaram casos em Uganda, embora não tenham sido registradas mortes no país. O comitê da OMS observou que o risco de disseminação para países vizinhos é moderado, mas a declaração tem como objetivo mobilizar mais recursos e atenção.

Por que essa declaração é importante

Declarar uma ESPII é o nível mais alto de alerta da OMS e desencadeia apoio internacional para o controle da doença. Trata-se apenas da quinta vez que tal declaração é feita desde que a regra foi criada em 2005, após surtos como o da Zika em 2016 e o de Ebola na África Ocidental em 2014. A medida pressiona governos e grupos de ajuda a aumentar financiamento e suporte logístico. O governo da RDC acolheu a declaração, mas enfatizou que o surto está sob controle dentro do país. O ministro da Saúde, Oly Ilunga Kalenga, afirmou que o país possui ferramentas para gerir a situação, mas precisa de mais recursos para interromper a disseminação.

Críticos argumentam que a declaração chegou tarde demais. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou no mês passado que o surto poderia piorar sem ações mais fortes. O grupo afirmou que campanhas de vacinação e enterros seguros estão sendo interrompidos por violência e resistência comunitária. Líderes locais dizem que as pessoas estão recusando as vacinas porque não confiam nos profissionais de saúde ou temem o governo. Algumas comunidades culpam o vírus por manipulação política ou interferência estrangeira, o que dificulta ainda mais o trabalho de conscientização.

O que acontece agora

A declaração da OMS não altera o manejo do surto no terreno, mas coloca o mundo em alerta. Os países agora são obrigados, por lei, a reportar quaisquer casos suspeitos que cruzem suas fronteiras, e as companhias aéreas podem enfrentar regras mais rígidas de triagem. A agência de saúde da ONU está pedindo US$ 98 milhões para financiar sua resposta até setembro, mas apenas cerca de metade desse valor foi prometido até agora. O governo da RDC também busca US$ 40 milhões em doações internacionais para apoiar seus próprios esforços.

Especialistas em saúde afirmam que o maior risco não é uma pandemia global, mas sim que o surto se prolongue por anos, tornando-se a nova normalidade no leste da RDC. O vírus já superou em duração o surto da África Ocidental entre 2014 e 2016, que matou mais de 11 mil pessoas. Diferentemente daquele episódio, este ocorre em uma zona de guerra, onde grupos armados controlam vastas áreas e a desconfiança em relação a estrangeiros é profunda. Quanto mais tempo durar, mais difícil será rastrear e tratar os casos.

Por enquanto, o foco está em vacinar mais pessoas, rastrear contatos e realizar enterros seguros. Mas, sem um cessar-fogo nos conflitos da região e um engajamento mais forte das comunidades, o surto pode continuar se alastrando. A declaração de emergência da OMS é um tiro de advertência — um sinal de que o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar a situação.