A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional no domingo, após um surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) ter causado pelo menos 80 mortes. Esta é a segunda vez em cinco anos que a OMS emite tal alerta para as recorrentes crises de Ebola no país. A cepa atual, Ebola Zaire, não possui vacina aprovada, o que torna o controle muito mais difícil do que em surtos anteriores, quando doses experimentais estavam disponíveis.

Autoridades de saúde informam que o vírus está se espalhando em aldeias remotas ao longo da fronteira com Uganda, onde o acesso é complicado e a desconfiança nas autoridades é profunda. A declaração de emergência ocorre em meio a relatos de que grupos armados atacaram postos de saúde, agravando ainda mais os esforços para rastrear casos e realizar enterros seguros. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou a situação como “grave e preocupante”, mas ressaltou que o risco para a população global permanece baixo.

Ainda assim, a declaração tem como objetivo liberar financiamento e recursos adicionais de governos e grupos de ajuda, que, de outra forma, poderiam hesitar em intervir. A última vez que a OMS emitiu esse nível de alerta foi em 2019 para a mesma região, um esforço que custou mais de US$ 250 milhões para ser controlado. Este surto teve início em abril próximo à cidade de Mbandaka, um centro comercial com infraestrutura de saúde frágil.

Equipes no local relatam que famílias estão escondendo parentes doentes para evitar a quarentena, e práticas tradicionais de sepultamento — onde os corpos são lavados manualmente — estão impulsionando a transmissão. O comitê de emergência da OMS, que se reuniu na sexta-feira, destacou que a disseminação do surto é impulsionada por “desinformação persistente e relutância da comunidade” em cooperar. Trabalhadores da saúde também têm enfrentado violência, incluindo um ataque a um centro de tratamento em junho que deixou uma enfermeira morta.

Sem uma vacina, as equipes estão recorrendo a métodos mais antigos: rastreamento rápido de contatos, enterros seguros e engajamento comunitário. No entanto, essas estratégias estão sendo sobrecarregadas pela desconfiança e obstáculos logísticos. A declaração de emergência não interrompe automaticamente o surto, mas pressiona os doadores a agirem com mais rapidez. Surtos anteriores na RDC mostraram que atrasos de até algumas semanas podem determinar a diferença entre o controle da doença e uma crise de proporções maiores.

Por enquanto, o foco está em estabilizar a situação antes da estação chuvosa, que tornará as estradas intransitáveis e isolará aldeias por meses. A OMS afirma necessitar de US$ 57 milhões para financiar sua resposta até setembro, mas até agora apenas cerca de 30% desse valor foi prometido. Autoridades locais de saúde alertam que, se o surto não for controlado em breve, poderá se espalhar para Uganda ou o Sudão do Sul, onde os sistemas de saúde são ainda mais frágeis.