A mensagem de Pequim é clara: não teste a linha vermelha. Wu Yongping, um dos principais especialistas chineses em assuntos de Taiwan e reitor do Instituto de Estudos de Taiwan da Universidade Tsinghua, afirma que a recente cúpula entre o presidente Xi Jinping e o ex-presidente Donald Trump enviou um sinal inequívoco de que Washington não está mais dando espaço a Taipei para buscar a independência formal. Essa é uma mudança em relação aos anos anteriores, quando líderes dos EUA muitas vezes vacilavam sobre o tema.

Wu falou ao South China Morning Post em uma entrevista exclusiva, parte da série Open Questions do jornal. Ele diz que as conversas entre Xi e Trump não apenas confirmaram o apoio dos EUA à política de uma só China — elas apertaram as rédeas sobre a capacidade de Taipei de agir unilateralmente. “A mensagem é alta e clara”, afirmou Wu. “Taiwan não pode contar com Washington para apoiar qualquer movimento que pareça um passo rumo à independência.”

Por que os próximos passos de Taiwan importam agora

O partido governante de Taiwan, o Partido Democrático Progressista (PDP), há muito tempo defende maior reconhecimento internacional e se distancia da reivindicação de Pequim sobre a ilha. Mas Wu adverte que o espaço de manobra de Taipei está encolhendo rapidamente. Ele aponta para recentes mudanças na política dos EUA — como vendas de armas e declarações mais firmes de Washington — como prova de que a administração Biden, e agora Trump, estão se alinhando mais de perto com Pequim em relação a Taiwan.

Wu não está defendendo o uso da força. Em vez disso, ele argumenta a favor do diálogo. “A reunificação pacífica ainda é possível”, diz ele, “mas apenas se Taipei parar de empurrar limites que possam desencadear uma crise”. Seus comentários vêm em um momento em que Pequim intensifica exercícios militares ao redor de Taiwan e aumenta a pressão econômica sobre a ilha, incluindo restrições comerciais e sanções a funcionários taiwaneses.

Como poderia ser uma reunificação pacífica

Wu descreve um processo gradual: integração econômica primeiro, seguida de negociações políticas dentro de um quadro proposto por Pequim há anos. Esse modelo, muitas vezes chamado de “um país, dois sistemas”, permite que Taiwan mantenha seu próprio governo, economia e forças armadas, enquanto tecnicamente faz parte da China. Mas Wu admite que o modelo é profundamente impopular em Taiwan, onde a maioria dos eleitores se opõe ao controle de Pequim.

Mesmo assim, ele insiste que Pequim não está desistindo. “Não estamos forçando a reunificação”, diz Wu. “Estamos oferecendo um caminho em que ambos os lados possam viver sob uma mesma bandeira sem perder o que torna Taiwan único”. Mas ele alerta que, se Taipei rejeitar as negociações, Pequim se sentirá justificada a tomar medidas mais fortes — incluindo ações militares, se necessário.

O papel dos EUA nas tensões entre os estreitos

A mudança na postura dos EUA não aconteceu da noite para o dia. Após anos de ambiguidade, funcionários americanos agora descrevem Taiwan abertamente como um “parceiro crítico” no combate à influência chinesa no Indo-Pacífico. Essa linguagem começou durante o governo Biden, mas continuou sob Trump, que chamou Taiwan de “história de sucesso” e apoiou mais ajuda militar à ilha.

Wu diz que esse alinhamento é intencional. “Os EUA não estão abandonando Taiwan”, afirma. “Mas estão deixando claro que Taipei não pode usar Washington como um escudo para movimentos independentistas”. Essa é uma grande mudança em relação ao caos da era Trump, quando o ex-presidente flertou com a ideia de abandonar completamente a política de uma só China.

A visão mais ampla? Pequim vê uma rara janela para avançar sua agenda. Com Trump de volta à Casa Branca, a China está testando se a administração dele manterá a postura dura contra a China que o caracteriza — ou se reverterá à imprevisibilidade de seu primeiro mandato.

O governo de Taiwan não comentou publicamente as declarações de Wu, mas analistas dizem que a liderança da ilha está observando de perto. A presidente Tsai Ing-wen construiu seu legado defendendo a democracia taiwanesa, mas também tentou evitar confrontos diretos com Pequim. A questão agora é se Taipei conseguirá manter esse equilíbrio — ou se Washington e Pequim forçarão sua mão.