O deputado trabalhista Wes Streeting tornou-se a primeira figura de alto escalão a declarar publicamente sua candidatura para substituir o primeiro-ministro Keir Starmer, caso o partido convoque uma disputa pela liderança. Em discurso durante a conferência anual do think tank de centro-esquerda Progress, em Londres, no sábado, Streeting — ex-ministro da Saúde — afirmou que busca uma competição aberta e transparente, e não uma transição pré-arranjada. “O povo britânico merece uma disputa legítima, não uma coroação”, declarou Streeting aos delegados. “Acredito na democracia, inclusive dentro do nosso próprio partido.”

Plataforma política emerge enquanto Streeting mira a liderança

Streeting aproveitou o palco para delinear os contornos iniciais de sua plataforma política, incluindo o compromisso de forjar um “novo relacionamento especial” com a União Europeia. Embora tenha evitado defender a reentrada imediata do Reino Unido no bloco, sinalizou que a adesão futura permanece um objetivo de longo prazo, argumentando que uma maior cooperação poderia impulsionar o comércio, a segurança e o crescimento econômico. “Precisamos ser honestos conosco mesmos: o atual relacionamento com a UE não está funcionando para a Grã-Bretanha”, afirmou. “Devemos buscar formas de aprofundar nossa cooperação, incluindo em comércio, regulação e segurança.” Suas declarações marcam uma mudança significativa em relação à abordagem cautelosa do atual governo trabalhista nas relações com a UE.

Divisões no Trabalhismo sobre disputa pela liderança são prováveis

O anúncio de Streeting aumenta a probabilidade de uma eleição disputada pela liderança, a primeira desde a derrota de Jeremy Corbyn em 2020. Embora o partido ainda não tenha convocado o processo, discussões internas se intensificaram nas últimas semanas devido a uma série de reveses nas pesquisas de opinião. Streeting, uma figura proeminente do blairismo dentro do partido, se posiciona como um modernizador capaz de reconectar com eleitores desiludidos, mantendo a dominância eleitoral do Trabalhismo. Suas ambições também sinalizam uma mudança geracional no partido, com Starmer, de 61 anos, enfrentando questionamentos sobre seu futuro a longo prazo.

Aproximação com a UE é central na proposta de Streeting

O ex-ministro da Saúde defende um novo relacionamento com a UE em um momento em que o Trabalhismo enfrenta pressões tanto de alas pró-europeias quanto de eurocéticos dentro do partido. Enquanto a ministra das Finanças, Rachel Reeves, descartou a possibilidade de reingresso ao mercado único ou à união aduaneira durante o atual mandato parlamentar, a retórica de Streeting sugere uma abordagem mais flexível. Ele argumentou que o partido deve adotar uma postura pragmática para enfrentar desafios econômicos, como o crescimento lento e o declínio do comércio com a Europa. “Não podemos nos dar ao luxo de ignorar a UE”, afirmou. “Ela continua sendo nosso maior parceiro comercial, e precisamos encontrar formas de trabalhar mais de perto sem abrir mão do controle.”

A candidatura de Streeting também deve reconfigurar a dinâmica interna do Trabalhismo, com possíveis candidatos como a vice-líder Angela Rayner e o ex-ministro das Finanças John McDonnell avaliando suas opções nas próximas semanas. O Comitê Executivo Nacional do partido deve se reunir no próximo mês para discutir as regras que regem qualquer futura eleição pela liderança, inclusive a possibilidade de reduzir o patamar necessário para convocar o processo. Fontes internas do partido afirmam que a movimentação de Streeting pode acelerar essas discussões.

O que acontece a seguir na disputa pela liderança do Trabalhismo?

Uma eleição pela liderança exigiria que a maioria dos deputados trabalhistas convocasse uma votação, seguida de uma consulta aos filiados do partido. Pelas regras atuais, um candidato precisa do apoio de pelo menos 20% dos parlamentares trabalhistas para entrar na primeira rodada. Streeting, deputado há longa data por Ilford North, é visto como tendo apoio suficiente para superar esse obstáculo, mas seu caminho para a vitória permanece incerto. A disputa provavelmente dependerá de sua capacidade de unificar as diversas alas do partido, ao mesmo tempo em que atrai o eleitorado em geral. Por enquanto, o anúncio de Streeting já mudou o debate político, forçando o Trabalhismo a confrontar questões sobre seu rumo e unidade diante da próxima eleição geral.